Contributo do Autoconsumo Coletivo e das Comunidades de Energia Renovável no sistema energético.
Diogo Gonçalves, Engº Ambiente

As transições em larga escala de um qualquer subsistema social, conceptualmente, envolvem alterações a longo prazo, por vezes radicais, de processos associados a configurações tecnológicas e à mobilização dos seus diferentes intervenientes.

Na atual transição energética, a energia desempenha um papel fundamental não só na economia, mas também na estrutura da sociedade, onde o seu valor social deverá ser aceite e legalmente reconhecido. A manutenção de uma harmonização legislativa e regulamentar, responsável pela organização do funcionamento do sistema energético, económico e social, será importante por forma a permitir superar os múltiplos desafios que os processos associados a esta transição enfrentam, tais como: o rápido consumo de recursos naturais; a poluição atmosférica, produção de gases com efeito de estufa; a pobreza energética; preços de energia acessíveis; distribuição de energia; entre outros.

Estes desafios, que têm como pano de fundo as alterações climáticas, relembram-nos que, para além de sermos consumidores de energia, devemos também contribuir para um envolvimento mais profundo no sistema energético. A transição energética para uma sociedade descarbonizada, cria assim o contexto para que os cidadãos e comunidades se unam e influenciem assuntos que afetam o seu dia a dia. Uma espécie de “… e todos por um”, relembrando Dumas. Este envolvimento será importante para modificar a atual natureza centralizada do sistema energético.

O início da transformação do atual sistema energético e das suas relações socioeconómicas, para um sistema energético descentralizado, poderá ser realizado com recurso aos diferentes tipos de consumidor de energia, utilizando conceitos como o “Autoconsumo Coletivo” (ex.: grupo de autoconsumidores situados no mesmo edifício) e as “Comunidades de Energia Renovável” (ex.: Município que proporciona proveitos da energia renovável local para satisfazer as necessidades locais).

Os projetos de “Autoconsumo Coletivo”, assim como as “Comunidades de Energia Renovável”, são conceptualmente associados à produção descentralizada de energia renovável. Esta produção de energia, tipicamente eólica, solar, ou cogeração por exemplo, realizada por um consumidor final, ou comunidades locais, para consumo próprio e armazenamento, possibilita aos seus intervenientes emanciparem-se dos grandes fornecedores de energia.

O estabelecimento deste tipo de projetos poderão ser a força motriz que impulsionará o desenvolvimento da sociedade, contribuindo para a crescente consciencialização na utilização das energias renováveis, importante na aceitação do atual período de transição energética, assim como para uma perceção de um sentido de comunidade, ou proximidade social, mais forte, contrariando de alguma forma possíveis mazelas provocadas por um momento atual tão atípico na história da nossa existência individual e coletiva.

Diogo Gonçalves, Engº Ambiente
Natural de Lisboa, Mestre em Engenharia e Gestão de Energia pelo Instituto Superior Técnico. Um dos responsáveis pela implementação na ADENE do projeto tecnológico de operação e logística de mudança de comercializador de energia, que tem como premissa promover a transparência dos mercados de eletricidade e gás natural. Nos últimos anos tem trabalhado no setor da energia, cooperando com as diferentes entidades, enquanto ADENE e anteriormente com passagem por um dos agentes de mercado do setor. Mantem o interesse e envolvimento académico na área da energia, tendo mais recentemente participado como orador no World Renewable Energy Congress (WREC) 2020, com um projeto de autoria própria. Acredita que a mudança de hábitos dos consumidores de energia, e o seu envolvimento no sistema energético, acoplado à evolução tecnológica, digital, e regulamentar, da produção de energia com base em fontes renováveis, são a chave para o cumprimento do objetivo comum de uma sociedade/economia descarbonizada.
Voltar a FUTURO
A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
chevron-down