O impacto da transição energética no cenário geopolítico internacional.
Inês Mendes, Engª Energia e Ambiente

A transição energética trará mudanças profundas no mundo que conhecemos. Não se trata apenas da substituição da utilização dos combustíveis fósseis pelas energias renováveis, mas sim de uma transformação profunda com implicações sociais, económicas e políticas que vão muito para além do setor energético. A alteração do cenário geopolítico internacional é uma delas.

Atualmente, as energias renováveis têm um papel crucial no futuro do planeta e o avanço tecnológico permite que estas sejam cada vez mais competitivas quando comparadas com os combustíveis fósseis finitos de que a maioria dos países ainda hoje é dependente. Para além disso, contrariamente aos combustíveis fósseis, as energias renováveis estão disponíveis, em pelo menos uma das suas várias fontes, na maioria dos países. No passado (e ainda no presente), a localização geográfica das reservas de petróleo, gás natural e carvão deteve um papel determinante no cenário geopolítico internacional. Assim, a transição para os recursos renováveis retira influência e poder aos países que possuem o monopólio das reservas de combustíveis fosseis, e que tiram proveito destes recursos para fins políticos ou que dependem economicamente da sua exportação (e que devem por isso adaptar-se a esta transição), reduzindo ainda a necessidade de infraestruturas de transporte e distribuição, e contribuindo para a segurança e independência energética dos países.

O aproveitamento das energias renováveis contribuirá ainda para a promoção da eletrificação da economia e para a descentralização da produção de energia (com o aparecimento de novas tecnologias e processos como os veículos elétricos, o armazenamento de energia e as comunidades de energia renovável), o que, por sua vez, irá contribuir para a independência energética dos países a nível local e regional, e que, consequentemente, irá impactar o mapa geopolítico.

A implementação destas tecnologias irá certamente dinamizar o comércio transfronteiriço de eletricidade, uma vez que a natureza volátil destes recursos faz com que seja necessário garantir sistemas flexíveis capazes de fazer face às flutuações de procura e oferta em tempo real. As interligações elétricas transfronteiriças serão então cruciais para responder a esta necessidade e os governos terão de desenvolver quadros regulamentares que permitam que a eletricidade flua livremente em mercados transparentes. As energias renováveis vão por isso criar novas geografias de ligações entre países e regiões, passando o peso da dependência energética dos mercados globais para as redes regionais. Estas interligações irão assim reforçar o posicionamento dos países em que se encontram, e reduzir a sua dependência para países exportadores. Adicionalmente, as interligações elétricas terão um papel importante no mapa geopolítico podendo ser, por exemplo, uma ferramenta de apoio para alcançar os objetivos da política externa da EU (como a integração de fontes de energia renovável, a segurança do aprovisionamento e a cooperação internacional) ou, por outro lado, causadoras de instabilidade política em caso de, por exemplo, quebras nas relações entre os países envolvidos ou conflitos internos num determinado país.

Entre outros, o poder económico e o nível de evolução tecnológica dos países terão também um peso importante no respetivo posicionamento no mapa geopolítico, uma vez que a existência geográfica dos recursos convencionais perderá relevância, e que países mais evoluídos poderão desenvolver e implementar mais facilmente diferentes métodos de aproveitamento dos recursos renováveis.

Assim, até 2040 antecipam-se grandes mudanças no cenário geopolítico internacional, que resultarão do desenvolvimento e implementação de novas tecnologias de recursos renováveis, da descentralização da produção de energia, do alcance da independência energética pelos países e do incremento de interligações elétricas transfronteiriças. Países que atualmente dependem fortemente das exportações de combustíveis fósseis ou que tiram proveito da sua existência, e que não se adaptem à transição que atravessamos, poderão enfrentar instabilidade económica e perderão influência política e, consequentemente, o seu atual posicionamento no mapa geopolítico. A maioria dos países poderá ainda vir a alcançar a independência energética, reforçando o seu desenvolvimento e a segurança do aprovisionamento, equilibrando por isso o mapa geopolítico. As interligações elétricas ganharão importância reforçada, contribuindo para a segurança do aprovisionamento das regiões (que ficam reforçadas no mapa geopolítico, reduzindo a dependência a outros exportadores), podendo, no entanto, ser causa de instabilidade dependendo da forma como são construídas e estruturadas.

Apesar da imprevisibilidade da transição energética, esta transformação é um passo na direção certa, combatendo as alterações climáticas e promovendo simultaneamente a prosperidade e o desenvolvimento sustentável.

Inês Mendes, Engª Energia e Ambiente
Inês Mendes é Mestre em Engenharia da Energia e do Ambiente pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Atualmente é gestora de projetos na Direção de Cooperação e Relações Institucionais da ADENE. Para além de gerir projetos de cooperação dedicados à promoção da transição energética e à transferência e capitalização de resultados comprovados, é também responsável por atividades de networking e cooperação com diversos Stakeholders, incluindo redes de Agências de Energia.
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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