Energia na Agricultura | 20.40
João Miguel Pereira, Agricultura

No dia em que escrevo assisto nas notícias ao fim da produção de energia em Portugal a partir de carvão: encerrou a central termoelétrica do Pego.

As minhas origens são da Beira Baixa, mais em concreto de uma aldeia chamada Malpica do Tejo (concelho de Castelo Branco). Recordo-me perfeitamente das viagens que fazia de Lisboa até lá e do fascínio que aquele enorme vulcão exercia sobre a minha cabeça de miúdo, que expelia um intenso fumo esbranquiçado e interrogar o meu pai do que se tratava…

De facto, hoje com 50 anos, sou surpreendido com a revolução da nossa humanidade e como somos confrontados com o avanço inexorável do bem e do mal que, inevitavelmente, daí advém. Socorro-me das minhas memórias pessoais, sobretudo de infância, para ilustrar retrospetivamente os saltos tecnológicos na agricultura e tendo apenas como timeline os últimos 40 anos. Na dita aldeia da Beira Baixa há 40 anos ainda era comum o recurso à energia animal para diversos trabalhos agrícolas a par naturalmente da força motriz humana. Ainda assisti, com entusiamo, ao trabalho de ceifeiras debulhadoras, em sistema fixo e que debulhavam o cereal de diferentes produtores, por marcação. No lagar de azeite da Cooperativa Agrícola de Malpica do Tejo (fundado em 1954) a força motriz era a água que alimentava o sistema de prensagem de extração do azeite e substituída há 25 anos por um sistema de extração por centrifugação, cuja principal fonte energética é eletricidade. Na rega da maior parte das parcelas era utilizado um sistema de canais e regos por gravidade…

Estamos naturalmente num contexto de uma agricultura tradicional, de base familiar em que aos avanços tecnológicos poderiam chegar a um ritmo mais lento, contudo não deixa de ser impressionante como, em “apenas” 50 anos, se revolucionou a atividade agrícola e em particular as suas fontes de energia, reforçado pelo facto ter sido vivenciado na primeira pessoa e, hoje nada mais são do que histórias para contar aos mais novos e ainda bem que assim o é!

Contrariamente aquilo que se poderia imaginar e ao invés do fator de produção – água -, o sector agrícola representa cerca de 3% do total do consumo de energia, podendo chegar a cerca de 26%, considerando todo o complexo agroalimentar (indústria e logística).

E qual a principal função da agricultura? Produzir alimentos! Embora, última e aparentemente, se tenha “esquecido” desta tão nobre missão: a agricultura produz os nutrientes fornecedores de energia sem os quais a vida humana seria impossível…

Como estaremos em 2040 e que desafios enfrentaremos? Diria que o primeiro e último grande objetivo, sem desvalorizar obviamente os outros, será alimentar uma população mundial que atingirá os quase 10 mil milhões de habitantes em 2050 e para qual teremos de produzir mais de 70 % de alimentos (FAO), face ao momento presente.

Energeticamente, a agricultura poderá contribuir de forma mais acentuada quer na produção de biomassa quer no fotovoltaico. Atente-se ao exemplo do solar flutuante na Barragem de Alqueva que apresenta a enorme vantagem de não competir com o uso do solo para a produção de alimentos. O despertar da chamada agricultura de precisão que, de forma simplista, permite atuar sobre o indivíduo e não sobre a população de uma determinada cultura será, sem dúvida, um passo de gigante para uma chamada agricultura digital num intuito de maiores produtividades, além da melhoria da eficiência energética e práticas agrícolas e florestais mais sustentáveis. Hoje e quando visito a Beira Baixa, vejo drones a sobrevoar algumas explorações agrícolas assim como um conjunto de aparelhos de medição que monitorizam uma série de variáveis que seguramente irão alimentar uma mega base de dados. Enfim, serão os meus filhos, daqui a uns anos, a contarem-me histórias…

Finalmente, como será a nossa versão Humanos.2040? A nossa maior fonte de energia reside em nós próprios e na nossa capacidade de implementar modelos de governação assente em políticas públicas indutoras de maiores equilíbrios entre os agentes do sector. A compatibilização entre interesses aparentemente contraditórios no triónimo agricultura-ambiente-energia carece de audácia e sobretudo de saber o que ser quer! Porque afinal a Terra não é nossa é apenas emprestada pelos nossos filhos…

João Miguel Pereira, Agricultura
Com Licenciatura em Engenharia Agronómica, Especialização Economia Agrária e Sociologia Rural, vasta experiência no setor e fundador de iniciativas e empresas tais como a TerraProjetos e a Beira Baixa inesquecível, um turismo de natureza e gastronomia beirã em Malpica do Tejo – Castelo Branco. É ainda Presidente da Direção da Associação de Produtores de Azeite da Beira Interior, Entidade responsável pela gestão da Denominação de Origem Protegida “Azeites da Beira Interior - Azeite da Beira Alta e Azeite da Beira Baixa”.
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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