A eficiência energética e de recursos como ferramenta para a neutralidade carbónica da indústria.
Paulo Calau, Eng. Eletrotécnico

A descarbonização do setor industrial e empresarial é uma das fortes apostas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para acelerar a transição para uma economia neutra em carbono e, ao mesmo tempo, promover a competitividade da indústria e das empresas. Na verdade, as emissões da indústria são uma fatia robusta das emissões nacionais de gases com efeito de estufa. No rumo para a neutralidade carbónica em 2050, ou seja, na respetiva transição energética, é fundamental apostar na eficiência energética na indústria, numa estratégia devidamente suportada na monitorização e redução dos consumos energéticos das instalações, em especial as consideradas como consumidoras intensivas de energia.

O percurso da eficiência energética nos consumidores intensivos de energia não é novo; iniciou-se em Portugal em 1982 através do Regulamento de Gestão do Consumo de Energia (RGCE) que tinha por primeiro objetivo instituir nos agentes económicos a análise da energia como "fator de custo", estabelecendo uma metodologia de intervenção para a gestão dos consumos específicos energéticos e para a redução progressiva dos mesmos.

Passadas mais de duas décadas da criação do RGCE ocorreram significativas alterações no espectro do perfil energético em Portugal, nomeadamente com a emergência e execução de consistentes políticas ambientais. O Ambiente e a Energia há muito que andam de braço dado; novos rumos de um implicam novos trilhos do outro. Tornou-se necessário reformar o RGCE face às novas exigências ao nível das emissões de gases com efeito de estufa.

Surge assim em 2008 o Sistema de Gestão dos Consumos Intensivos de Energia (SGCIE), que dá continuidade à monitorização da gestão de energia dos grandes consumidores a um conjunto mais abrangente de empresas e instalações com vista ao aumento da sua eficiência energética e à do país.

O SGCIE já fez 13 anos… e aplausos para o setor industrial e empresarial. As suas economias de energia estão em linha com a meta de redução do consumo de energia primária para a eficiência energética, estabelecida no Plano Nacional de Energia e Clima 2030. O SGCIE fez e vai continuar a fazer a diferença, potenciando o aproveitamento de oportunidades para a eficiência nas empresas, em particular naquelas com grandes consumos de energia. Para o futuro pretende-se uma adesão crescente ao sistema por parte de novos operadores. E mais. Pretende-se um uso cada vez mais extensivo da informação e das boas práticas e a abertura a outras dimensões da economia circular (para além da energia).

Em 2017, a ADENE iniciou a sua atividade na economia circular num projeto que visava o desenvolvimento de metodologias de avaliação e classificação de práticas de gestão das empresas orientadas à transição para uma economia circular, procurando aumentar a eficiência energética, hídrica e de circularidade em toda a cadeia de valor. Em 2020 a ADENE avançou para o desenvolvimento e operacionalização de um sistema de certificação da economia circular mais abrangente e de aplicação transversal a diversos setores da atividade industrial.

O futuro da descarbonização do setor industrial e empresarial deverá incidir na atuação sobre a eficiência da utilização de recursos conjugando a experiência adquirida na eficiência energética dos grandes consumidores com a utilização eficiente de outros recursos como a água e os materiais via economia circular daqueles. No futuro antevê-se a criação de sinergias ou mesmo a ligação entres sistemas voluntaristas de economia circular e a regulamentação para as auditorias energéticas.

Esta dinâmica de atuação multidisciplinar permitirá criar uma nova profissão de técnico de economia circular habilitado para trabalhar na eficiência de recursos trazendo valor acrescentado das auditorias que executa.

Para a maximização dos resultados até 2050, os instrumentos de política e políticas públicas deverão incentivar as medidas propostas nestas auditorias de eficiência de recursos, dando particular ênfase ao reconhecimento e certificação do desempenho das organizações em matérias de sustentabilidade energética e eficiência de recursos.

Tudo alinhado. A Transição Climática e Sustentabilidade dos Recursos - com o domínio da economia circular - é uma das agendas da “Estratégia Portugal 2030”. A eficiência da economia urge!

Paulo Calau, Eng. Eletrotécnico
Começou a trabalhar no Centro para a Conservação de Energia (CCE) em 1988, atualmente ADENE, onde é Coordenador da Área de Indústria e Economia Circular. Efetua a gestão de atividades de promoção e implementação da eficiência energética e gestão eficiente de recursos na Indústria e empresas, incluindo a gestão operacional do SGCIE – Sistema de Gestão dos Consumos Intensivos de Energia e a criação de um Sistema de Classificação de Economia Circular. De maio de 2013 a junho de 2015 exerceu a função de Diretor Executivo da Estrutura de Gestão do Plano Nacional de Ação para a Eficiência Energética (PNAEE 2016).
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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