Como vejo o futuro da energia?
Pedro Couceiro, Piloto

A relação que tenho com a energia vem de longe.
Seria quase óbvio relacioná-la com a vida nas corridas, mas não!
A minha primeira memória acaba por ser um momento que guardo bem nas mais longínquas recordações e que muito me tem ajudado a relativizar toda esta problemática atual em torno do futuro das energias.
Tinha talvez os meus 7 ou 8 anos e ouvia muito o meu Pai, engenheiro de profissão, conversar com os seus amigos. Numa dessas conversas, recordo-me, relatou as efusivas declarações que ouvira de peritos internacionais e onde estes lhe tinham afirmado serem as reservas de petróleo mundiais já escassas e que, porventura, dariam para somente mais 30 ou 40 anos!
Apesar da minha tenra idade, aqueles valores nunca me saíram da cabeça.
O que seria de nós daí a 40 anos?
Como ia o mundo viver sem gasolina!?
Como iria eu ser Piloto!?
40 anos passaram.
E. Afinal o presente daquele futuro ditado nos anos 70 mais não estava do que verdadeiramente “Errado”.
Pelos vistos, hoje, fala-se em mais 40 anos, pelo menos!
Serve esta pequena história para mostrar um pouco como lido com a situação, quando me falam em “Futuro”.

Assusta-me ver muitos dos mais altos responsáveis da nossa sociedade dizer o que vai ser o “Nosso Tempo lá mais para a frente!”.
No passado, muitas dessas previsões acabaram por sair erradas.
Acho que devíamos, sinceramente, aprender com a história.

A mobilidade tem-se adaptado de uma forma gradual, neste último século, à nossa evolução e às suas inerentes necessidades, e temos sempre encontrado formas, energéticas, de acompanhar esse desenvolvimento.

Fizemo-lo, por vezes mais criativos, por outras menos conscientes do impacto da “pegada” futura.
Mas esse desenvolvimento acabou por ser sempre gradual e, como que peças de um puzzle, tudo sempre se foi encaixando melhor ou “pior”, mas encaixando!

Vejamos o exemplo da motorização “Diesel”.
Apesar de ter sido idealizado há mais de um século, foi nos últimos cerca de 60 anos que este conceito começou a sua verdadeira grande “viagem” na integração de veículos comerciais.

Criticado por muitos, houve mesmo tentativa de alguns em classificá-lo como poluente e não eficaz energética ou potencialmente.

A história veio precisamente mostrar o contrario.
Porventura será, aos dias de hoje, a motorização mais estudada e desenvolvida que os nossos comuns “carros” do dia a dia alguma vez albergaram.
Potência versus gasto energético muito acima dos mais directos concorrentes (leia-se gasolina, gás, álcool ou eletricidade) e… para surpresa de muitos… com uma taxa poluente tão reduzida que os mais efusivos críticos terão dificuldade, honesta, em atacar.
Então, pergunto-me…
Porque será que quando estamos num patamar evolutivo tão evidente, aparece de forma abrupta uma radicalização e incriminação de tais fontes de mobilidade?

Acho que nenhum de nós colocará em questão que não iremos, nem poderemos, depender dos combustíveis fósseis eternamente.
Não só pela sua existência “finita”… julga-se!.... mas também porque a evolução e nossa presença terrena exigirá uma melhoria, ecologicamente falando, na forma como nos deslocamos.

Mas, quanto a mim, o problema está em nos quererem impor que essa evolução seja feita em tão curto espaço de tempo…
Abolir em tão poucos anos, como alguns pretendem, uma forma de mobilidade que tem vindo a ser desenvolvida há décadas, poderá trazer-nos custos bem maiores do que pensamos.

Porque não se trata somente de vermos a mobilidade versus poluição directa.
Trata-se também de contabilizar a mobilidade versus poluição indirecta versus custos efectivos versus abolição de futuros postos de trabalho versus efeitos sociais de uma tão abrupta e radical mudança de hábitos versus capacidade de resposta dos fornecedores de novos conceitos de mobilidade em colocar à disposição os seus serviços sem quebras do sistema versus… versus… versus…..!!!
Ou seja, não me parece tão linear assim que uma repentina mudança nos paradigmas quanto ao uso energético para a nossa mobilidade possam vir a ser tão efusivamente positivos como querem alguns “opinadores” e governantes fazer querer.

Julgo que devemos ser ambiciosos, mas devemos também saber ser prudentes quanto a algumas das decisões de política energética mundial.

Sempre que me deparo com um problema, gosto de “fechar os olhos” e tentar observar esse mesmo problema por diversos prismas. De certa forma criar opinião e contra-opinião sobre uma mesma ideia que possa ir desenvolvendo.

No caso específico das energias e sua utilização na futura mobilidade, gosto de sonhar… ver como nos iremos transportar daqui a 5,10,20 ou mesmo 100 anos.

E… surpreendo-me com esses sonhos!
Surpreendo-me porque não acho que a mudança seja aquela que tantas vezes penso e ouço falar enquanto acordado!

Desafiam-me a estar em 2040.
Vejo as motorizações de combustão interna continuarem a ter um papel preponderante na mobilidade… Sim… combustão interna!
Vejo essas mesmas motorizações optimizadas por novas formas de combustível, menos poluentes, quem sabe mesmo com emissões zero e acopladas por massivos e muito eficazes regeneradores das energias cinéticas resultantes da mobilidade dos veículos.
Continuo a ver potência…. Mas uma potencia alicerçada num desenvolvimento enorme das eficácias energéticas então existentes.
A par disso, vejo uma cada vez maior automatização da mobilidade, automatização essa que levará a um melhor e menor gasto da energia.
Vejo muito o Híbrido a evoluir… Gasolina & Eléctrico, Diesel & Hidrogénio, Bio.Fuel & Solar…. ou uma qualquer “Criptonite” que, entretanto, venhamos a descobrir!... Inventemos!
Vejo postos de abastecimento com Baterias portáteis…
- “Por favor, dê-me uma bateria de 100Kw/h”!!!!

Enfim….

Acho que podemos e devemos sonhar.
Foi esse sonho que nos fez criar máquinas perfeitamente maravilhosas nestes pouco mais de 100 anos de evolução.
E… se 100 anos foi… na passada semana…
2040 será já amanhã!

Pedro Couceiro, Piloto
Pedro Couceiro (Lobito - Angola, 23 de Março de 1970), é um piloto de automobilismo português. Depois de nos finais dos anos 70 se ter tornado mais conhecido como cantor infantil, ingressou com 12 anos no desporto motorizado onde os resultados obtidos lhe possibilitaram subir pelos mais vários escalões nacionais e internacionais. É, até aos dias de hoje, um dos mais internacionais pilotos portugueses, com uma carreira além fronteiras que conta com mais de 20 anos.
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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