O papel da energia no desenvolvimento sustentável.
Sidney Quintela, Arquiteto e urbanista

Como arquiteto, tive a oportunidade de conviver com sociedades diferentes com necessidades vitais, valores éticos e culturais diversos ao menos em quatro dos sete continentes existentes em nosso planeta, e deste olhar mais amplo para a forma de viver das pessoas e a importância que a produção, distribuição e utilização da energia, necessárias para proporcionarmos o desenvolvimento humano, preservando a biodiversidade a cultura e os valores étnicos de cada comunidade, se faz necessário um engajamento também ele muito mais amplo entre todos os atores envolvidos neste processo.

Para termos um entendimento mais claro e objetivo sobre o futuro da energia em nosso planeta será bom procurar entender um pouco melhor os conceitos fundamentais da sustentabilidade plena.

O desenvolvimento sustentável tem por definição, de acordo com o relatório Brundtland (1987), ser “o desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais”.

Cronologicamente, o conceito de desenvolvimento sustentável vem sendo discutido desde 1968 com a criação do Clube de Roma1 e a redação de um primeiro relatório

demonstrando que devido ao constante crescimento econômico, é previsível uma grande redução populacional devido à poluição, perda da capacidade de produção de alimentos e escassez de recursos energéticos. A partir de então, conferências internacionais e a publicação do Relatório Brundtland2, no qual o termo “desenvolvimento sustentável” foi usado pela primeira vez, fizeram com que fosse convocada uma “Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento”. Com a presença de 113 chefes de estado e mais de 400 instituições governamentais e não governamentais, foram discutidas pela primeira vez a situação ecológica do planeta e a criação do primeiro documento a tratar do direito do homem de viver com dignidade. Este encontro deu origem a outros, para discutir estas questões a nível global, discusões que fazem parte de um processo de entendimento e conscientização global da importância para o futuro, da busca por encontrar soluções equilibradas que proporcionem o desenvolvimento humano em harmonia com a preservação dos recursos naturais e culturais em nosso planeta.

Por princípio, o desenvolvimento sustentável se divide em três - a sustentabilidade ambiental, econômica e a sociopolítica – que, unidas, levam a uma sustentabilidade plena.

Sustentabilidade Ambiental

A utilização dos recursos naturais de maneira consciente e a manutenção do ecossistema de forma sustentável a fim de manter as condições de vida para as pessoas e para outros seres vivos é a principal definição de sustentabilidade ambiental. De acordo com Cavalcanti (1997), a ideia de sustentabilidade está relacionada com uma limitação definida nas possibilidades de crescimento, citando ainda o autor que as preocupações ecológicas deverão estar sempre agregadas às políticas públicas.

A redução da perda da biodiversidade, dos recursos ambientais e da proporção da população sem acesso a água potável e saneamento básico, bem como alcançar uma melhoria significativa de qualidade de vida das pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza são considerados os principais objetivos, de acordo com as Metas de Desenvolvimento do Milénio3, para alcançar a sustentabilidade ambiental.

Sustentabilidade Sociopolítica

Com a preocupação voltada para o equilíbrio social, bem como a pretensão de desenvolver componentes humanos e culturais no tecido social, a sustentabilidade sociopolítica diz respeito ao desenvolvimento não somente com preocupações económicas, mas também humanas.

A criação de dois planos importantes, a Agenda 214 e as Metas de Desenvolvimento do Milênio, foram fundamentais para estabelecer a relevância do comprometimento dos países no modo como as organizações, públicas ou não, podem cooperar para definir soluções para os problemas sociais, ambientais e humanos, e promover a igualdade e o desenvolvimento dos povos.

Sustentabilidade Económica

Através de medidas e políticas que visam a incorporação de preocupações e conceitos ambientais e sociais, para que as organizações durem e sejam eficientes por um longo período, a sustentabilidade económica estabelece que as economias locais sejam economicamente viáveis, ambientalmente saudáveis e socialmente responsáveis.

Para que os sistemas de produção de energia, por exemplo, pelos princípios do desenvolvimento sustentável possam ser eficientes, deverá existir um esforço por meio da comunidade para a preservação das fontes de geração. Através de práticas sustentáveis, o apoio à produção e a distribuição de energias renováveis que utilizem os recursos naturais de forma inteligente e responsável.

Etnodiversidade

Assim como a biodiversidade é composta por tudo o que é palpável em nosso planeta, como a terra, a água, o ar, a fauna e flora, a etnodiversidade é composta por toda a produção cultural concebida pela humanidade desde o surgimento da vida na Terra. Seus hábitos, seus idiomas e dialetos, sua crença, suas religiões, suas regras de convivência, enfim, um conjunto imenso de códigos pessoais, familiares, comunitários e culturais, que diferem a forma de viver entre as comunidades, conferem a cada etnia uma forma própria de viver, que traduz a cultura dos seus antepassados e adapta-se de forma equilibrada e respeitosa à evolução natural da forma de viver e às novas tecnologias.

Deste modo, acrescenta-se a este pensamento mais uma dimensão ao desenvolvimento sustentável, por acreditar que somente respeitando os hábitos e a cultura das comunidades pré-existentes, o futuro da geração e a distribuição de energia irão conseguir dialogar de forma direta e intrínseca com os utilizadores, criando assim o pertencimento necessário para que o consumo de energia venha a obter êxito em sua plenitude, uma vez que este recurso existe para servir as pessoas e deverá estar sempre presente na busca da melhoria da qualidade de vida destas.

Jamais deverão ser ignoradas a cultura e os costumes das comunidades que utilizarão estes recursos, que serão desenvolvidos para serem utilizados por estas e que, necessariamente, deverão utilizá-los de forma inteligente e racional, sob pena de criarmos um afastamento dos usuários, levando assim ao fracasso do objetivo

principal de utilização sem desperdícios, de forma eficiente e que conheça, entenda e valorize não só o recurso fim, a energia elétrica na ponta do consumo, mas todo o processo envolvido, desde a geração, passando pela distribuição e chegando até o consumo final.

A energia nos próximos 20 anos

A Energia é um dos recursos fundamentais, não só para o desenvolvimento humano, mas também para a preservação da vida com qualidade, visto que todos os processos que permeiam a manutenção da vida humana e o seu desenvolvimento, necessitam direta ou indiretamente deste recurso.

Historicamente, a produção de energia assentou, maioritariamente, na exploração de recursos fósseis, sobretudo por motivações políticas, empresariais mas também por limitações de tecnologias disponíveis. Embora haja uma tendência mundial pela busca de soluções e tecnologias para a produção e distribuição de energias provenientes de fontes renováveis, que respeitem o meio ambiente e seus usuários, ainda hoje é infinitamente maior a percentagem da geração de energia em nosso planeta a partir de fontes energéticas não renováveis e que não respeitam os princípios da sustentabilidade plena.

Para garantir o princípio fundamental da sustentabilidade da vida com qualidade em nosso planeta, temos que garantir que as gerações futuras tenham a possibilidade de viver com dignidade e que também possam fazer as suas próprias escolhas, para que tal aconteça temos a obrigação de preservar os recursos ambientais e culturais, fazendo o uso destes recursos de forma consciente e sustentável, envolvendo todos os atores deste processo de forma intrínseca, sejam eles ambientalistas, antropólogos, cientistas, agentes políticos, empreendedores, agentes financeiros, agentes fiscalizadores, distribuidores logísticos e consumidores. A conscientização real e irrestrita de todos os povos que habitam em nosso planeta, respeitando as particularidades sociais e culturais de cada etnia, deixando de lado os interesses individuais e particulares, possibilitará encontrar o caminho para um convívio com os

nossos recursos naturais de forma honesta e inteligente para a geração de energias a partir de fontes renováveis que são ilimitadas em nosso planeta. A nossa biodiversidade está em constante movimento e é preciso que estes recursos naturais sejam entendidos e utilizados como eles se apresentam naturalmente. Este movimento gera automaticamente energia cinética, que facilmente é convertida em outros tipos de energia, utilizando a tecnologia disponível, e sobretudo a capacidade e a criatividade do ser humano em resolver problemas e adaptar-se a novas realidades. Gerar, distribuir e consumir energias de forma limpa, sustentável e consciente, preservando os recursos e garantindo longevidade a todo o processo de manutenção e desenvolvimento da qualidade de vida em nosso planeta é o grande desafio da humanidade, afinal nós seres humanos somos parte desta biodiversidade que precisamos preservar.

A relação da energia com a arquitetura é intrínseca, hoje é absolutamente indispensável a utilização da energia para o bom funcionamento e o conforto na arquitetura, que tem como premissa básica proporcionar qualidade de vida e conforto aos seus usuários, independentemente das condições climáticas a que esteja submetida.

Voltando aos fluxos que geram energia cinética simplesmente dissipada, sem aproveitamento algum, podemos admitir que todos os fluxos de água, esgoto e gás, entre outros que compõem a utilização de edifícios arquitetónicos e que geram energia cinética, possam ser convertidos em energia elétrica ou térmica, tornando os edifícios em agentes co-geradores de energia, podendo até virem a ser auto-suficientes no que diz respeito às suas próprias necessidades de consumo, contribuindo assim de forma inteligente para a sustentabilidade plena a que tanto me refiro. Continuarei a perseguir esse propósito em todos os meus projetos.

Sidney Quintela, Arquiteto e urbanista
Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia – 1998 Equivalência à Licenciatura em Estudos Arquitetónicos pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa – 2017 Mestrado Integrado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa – 2020
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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