O Sol, a energia do passado, do presente e do futuro.
Silvino Spencer, Engº Físico

O recurso

Com cerca de 5 mil milhões de anos, o Sol é a fonte inesgotável de energia sem a qual a vida na Terra, como a conhecemos, já não faria sentido, mas também sem a qual o edifício moderno, com o seu consumo quase nulo de energia, não seria possível. O Sol está na origem de praticamente todas as outras formas de energia, a energia da água, do vento, da biomassa, e de origem fóssil, sem esquecer que é pela luz solar que a maioria da humanidade realiza a sua atividade, e é a energia do Sol que está mais próxima de nós. Este breve texto refere as tecnologias de conversão da energia solar que registarão maiores avanços nos próximos tempos, as novas e arrojadas propostas de aplicação deste recurso e as ações/iniciativas determinantes para o aumento significativo da sua utilização, nas próximas décadas, a escala global e também em Portugal.

A tecnologia

As tecnologias baseadas na conversão da energia solar são agora devidamente consideradas como verdadeira tecnologia "verde" e uma forma clara de reduzir as emissões do CO2, combater a ameaça às alterações climáticas globais e às crescentes preocupações sobre o futuro e a segurança do aprovisionamento energético mundial. No entanto, várias tecnologias de conversão da energia solar têm sido utilizadas ao longo de milénios de história humana, incluindo a conversão direta em eletricidade, a energia fotovoltaica, com apenas cerca de 50 anos de história, mas em grande expansão nos últimos anos. Nos próximos anos, os desenvolvimentos tecnológicos em sistemas de armazenamento térmico permitirão a utilização da energia do Sol mesmo quando não está disponível, para a qual a energia térmica produzida durante as horas de sol pode ser desviada para utilização posterior. Destaca-se a tecnologia CSP, Concentrated Solar Power, que oferece elevada “despachabilidade” e a possibilidade de deslocação da produção da energia elétrica para o período noturno, resolvendo a questão da intermitência, uma vez que o sistema garante produção de energia elétrica 24/7. Acresce que a energia solar é a opção, entre as diferentes fontes de energia primária não poluente, que melhor se adequa à produção de Hidrogénio por eletrólise, uma vez que, tanto os sistemas fotovoltaicos como os sistemas CSP transformam este vetor energético em portador de energia do Sol, Hidrogénio verde, importante para o fornecimento de energia à sectores que de outra forma seriam difíceis de descarbonizar através da eletrificação nomeadamente, transportes marítimos, indústria e utilizações que requerem calor de elevada intensidade.

Ações/Iniciativas

As alterações climáticas são um fenómeno global e a utilização de um recurso energético disponível em todas as regiões habitadas do planeta, em contraste com os recursos energéticos de origem fóssil, é uma forma sustentável de contribuir para a redução das emissões de gases de efeito de estufa. Por outro lado, os países em vias de desenvolvimento ambicionam atingir níveis de consumo de energia que possam impulsionar maiores taxas de crescimento nas suas economias, o que no cenário atual poderia significar aumentos consideráveis nas emissões de CO2 relacionadas com a conversão de energia nas próximas décadas. Estes países apresentam elevados níveis de insolação, o que torna a energia do Sol adequada para novas áreas de cooperação entre países que dispõem da tecnologia, por um lado, e países em desenvolvimento, por outro, contribuindo assim para melhorar os índices de desenvolvimento humano e reduzir a pressão sobre os recursos florestais amplamente utilizados como fonte de energia primária nestas latitudes. Acresce que à medida que o preço da energia de origem solar se aproximar do preço da energia gerada a partir de combustíveis fósseis, os países em desenvolvimento terão maiores oportunidades de adotar a geração solar distribuída, tal como aconteceu com a adoção, em larga escala, dos telemóveis e o abandono dos telefones de linha fixa. Além disso, a cooperação Sul-Norte ganha uma nova dimensão com a implementação de acordos que possibilitam a utilização de extensas áreas desérticas a sul da bacia do Mediterrâneo no Norte de África para a instalação de sistemas CSP, sendo parte da energia elétrica gerada transportada para os países europeus, alcançando 2 objetivos fundamentais, a transferência de tecnologia e a transferência da energia não poluente.

Apesar dos avanços tecnológicos e da previsibilidade da disponibilidade do recurso solar, em Portugal a conversão térmica ativa nos edifícios é um desafio que deixou de ser tecnológico para se transformar num problema de conhecimento técnico colocado ao serviço da definição e execução das instalações. Após ser resolvida a questão pendente da capacitação dos profissionais que desenvolvem estes sistemas, Portugal deveria promover um plano nacional para a energia solar, a desenvolver na próxima década, com linhas orientadoras para a sua utilização em setores muito específicos, dando prioridade, numa primeira fase, à produção de água quente, que representa consumos significativos de energia nos edifícios e na indústria. Este compromisso nacional teria uma forte componente de monitorização do mercado de aquecimento solar, analisando a qualidade e a eficiência dos sistemas, os hábitos dos utilizadores e a prestação dos diferentes profissionais que integram a sua extensa cadeia de fornecedores, de forma a garantir melhor suporte e aconselhamento ao potencial investidor. A sua implementação poderia ser através de um Secretariado Técnico para a Energia Solar, agregador de um conjunto de ações de promoção ao investimento, com a vocação para desenvolver o sistema de competências baseadas em evidências, estabelecendo um padrão de verificação de qualidade dos sistemas.

Silvino Spencer, Engº Físico
“Empowering” os consumidores da energia solar é a minha verdadeira paixão. Partilhar conhecimentos, capacitar profissionais e promover o sistema de Competência Baseada em Evidências dá-me uma enorme gratificação. Não perco uma oportunidade de ser coreto com os outros e não viro as costas à injustiça.
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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