A Origem do Mundo.
Tiago R. Santos, Argumentista

Energia.

e.ner.gi.a

nome feminino

1. FÍSICA capacidade de produzir trabalho

2. força; vigor

3. firmeza

Dicionário Porto Editora

A Júlia nasceu em Janeiro de 2020 e foram raras as noites bem dormidas desde o dia em que passou com distinção no seu teste de Apgar. Não alcançou o 10 mas esteve lá perto. Frequência cardíaca impecável; esforço respiratório admirável; tónus muscular adequado; prontidão reflexa imediata e cor de pele ligeiramente acinzentada – perdeu um ponto aqui na última categoria, mas ninguém disse que era fácil chegar a este planeta que se tornou, à força, no mundo dos humanos. Em 2040, Júlia terá 20 anos. Já a Terra deverá andar aí pelos 4,54 mil milhões. Eu, Tiago R. Santos, autor deste texto que escrevo a convite da ADENE, estarei nos 65. Viveremos num futuro que imagino muito pouco futurista; na minha visão moldada e romanceada por filmes distópicos e literatura apocalíptica, prevejo uma realidade anacrónica, onde os carros não serão voadores mas sim objectos arqueológicos transformados em peças de decoração: a bagageira serve lindamente de canteiro mas não se esqueçam de conversar com as petúnias, elas gostam da companhia. Eu estarei velho, não velho-velho (espero) mas por certo mais velho e cansado e sem paciência, com as dobras das calças enroladas como naquele poema que o meu amigo Bartholomew musicava tão bem, a Canção de Amor de J. Alfred Prufrock, do T.S. Eliot, que foi escrito em 1915 e atravessa espaço e tempo para estar aqui e agora:

‘Parto o cabelo ao meio?

Atrevo-me a comer um pêssego?

Andarei na areia em calças de flanela branca

Escutei o canto das sereias, em disputa

Não creio que cantarão para mim’

Em ‘O Cerco’, uma série que criei e um de vários projectos que ficaram por concretizar, imaginei um mundo distópico onde a ausência de tecnologia obrigava uma pequena comunidade a regressar à tradição da história oral. Sem televisão, internet ou telemóveis, as famílias viam-se obrigadas, para se entreterem, a inventar enredos – ou a reinterpretar aqueles que já conheciam, tornando-os, assim, singulares e criando momentos irrepetíveis a partir de conceitos universais. Acredito que, enquanto existir mundo, haverá alguém para o contar e adaptar, ajudando a encontrar ordem no caos e significado na aleatoriedade. Essa compulsão narrativa traduz-se em capacidade de produzir trabalho, criando uma energia criativa inderrotável, resistente a sistemas opressivos ou censuras ditatoriais. Sei bem que a minha visão ludita do futuro anteriormente aqui descrita é pura utopia; as leis da probabilidade apontam para o caminho inverso, para a multiplicação e banalização dos meios tecnológicos que transformaram cada individuo num produtor de conteúdos que são transmitidos para o mundo inteiro, captáveis e observáveis onde quer que exista wi-fi. Todos falamos e ninguém se ouve. Alguns brindam com copos de cristal; outros afogam-se na travessia entre territórios. Demasiado barulho, muita confusão e aquela arrogância humana de acreditar que somos o centro do universo e, como tal, imortais; indiferentes ao facto de que, se até um ictiossauro de 21 metros desapareceu da face da terra há 220 milhões de anos sem deixar memória, então que hipótese teremos nós quando o planeta se fartar da nossa atitude de turista inconsciente, convencido que não mora aqui e que outros apanharão o lixo que criamos?

Energia.

e.ner.gia.

A capacidade de produzir trabalho.

A capacidade de entrar neste mundo em falência, esquizofrénico e disfuncional, e mesmo assim passar com distinção no teste Apgar. De ir a correr para dentro da casa em chamas porque nem tudo está perdido; porque há coisas que se podem salvar; porque ficar a assistir até só restarem cinzas não é uma opção. Força; vigor; firmeza e resistência ao sono; a energia do futuro será feminina e o seu nome é Júlia ou Ana ou Maria ou Samuel ou Francisca ou Luka ou João ou Inês ou Teresa ou Luísa ou Camila ou André. Elas, seja qual for o seu género, trazem consigo a origem do mundo. Acompanhá-las é assistir à evolução da espécie. Estas pessoas serão as criadoras do futuro, as protagonistas de 2040, heroínas em tempo de crise, capazes de encontrar soluções que nenhum de nós consegue prever ou adivinhar. Energia personificada, capazes de iluminar cidades.

Eu, velho mas não velho-velho, lá estarei também. A tomar notas e tentando conter a minha admiração.

Tiago R. Santos, Argumentista
Tiago R. Santos é argumentista, tendo escrito mais de 10 longas metragens e várias séries de televisão. Já foi crítico de cinema. Ocasionalmente, é também realizador, romancista e professor.
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A ADENE é a agência nacional para a energia, com uma missão centrada nas pessoas e a ambição de reforçar o posicionamento de Portugal na descarbonização, é um parceiro ativo da transição energética, fortalecendo parcerias, dinamizando a política pública e estando mais próximo dos cidadãos. Com toda a energia!
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